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Archive for Setembro, 2008

 

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A análise dos elementos mediterrâneos mostrou como eles constituem a trama essencial da geografia e da economia portuguesa. Traços de clima, formas de vegetação, modos de vida comuns a todo o território, indicam que este se deve ligar, no conjunto, às regiões ribeirinhas do mar interior. As feições que derivam da posição atlântica, dominantes apenas no Noroeste, adquirem, contudo, especial importância. A paisagem clássica portuguesa são aquelas verduras macias, aquela terra produtiva e ocupada, aquele formigueiro de gente rural, e não os descampados solenes do Alentejo ou a solidão agreste das montanhas […].

Foi através do Atlântico que se estabeleceram também as relações mais distantes da terra e da gente […].

Na posição do território está contido um destino: isolado na periferia do mundo antigo, numa nesga de chão em grande parte bravio e ingrato, coube ao português o pioneiro do mundo moderno. Não se limitou porém a indicar um caminho: afoitando-se por ele, deixou marcas da sua presença inscritas na terra de quatro continentes.

 

Orlando Ribeiro: ” Portugal – O Mediterrâneo e o Atlântico” (1986)

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O Portugal de Orlando Ribeiro

Guilherme d’Oliveira Martins

O Portugal de Orlando Ribeiro é encruzilhada de influências¸ entre o Mediterrâneo e e Atlântico¸ atenta à complexidade e à reversibilidade dos movimentos de uma geografia fundamentalmente humana.

Portugal é uma terra de contrastes¸ onde pontificam o Atlântico e o Mediterrâneo. Mas é difícil de definir¸ pela complexidade e pela diversidade de elementos que caracterizam o país. Orlando Ribeiro escreveu em 1943 um livro notabilíssimo¸ pelo rigor da investigação e pela leveza da escrita¸ que constitui um vade mecum indispensável para quem queira conhecer a geografia de Portugal e¸ através dela¸ a nossa identidade. Falo-vos de Portugal¸ o Mediterrâneo e o Atlântico (Sá da Costa¸ 4′ ed.¸1986)¸ do qual Rubem A. disse¸ justamente¸ tratar-se do livro mais notável escrito em Portugal nos meados do século passado… Estamos perante uma obra de indiscutível valia científica e de grande sensibilidade literária – essencial para acompanhar os primeiros passos de uma investigação séria sobre a identidade portuguesa. Em lugar de considerações apressadas¸ trata-se de indagar¸ através dos diversos factores e manifestações relevantes¸ como é que “Portugal é mediterrânico por natureza e atlântico por posição” – na fórmula tornada clássica de Pequito Rebelo.

“Disposto de través na zona mediterrânica¸ bem engastado numa península que é como a miniatura de um continente¸ o território português abre se para o mundo por uma vasta fachada oceânica” (p.131). 0 traçado de viés é acompanhado de alternâncias climáticas e da coexistência do clima oceânico e o.7 secura quente. E é a “vigo rosa oposição das terras altas e montanhosas¸ cortadas de vales profundamente incisos “¸ as repercussões no revestimento vegetal define uma terra de contrastes. Norte e Sul – o primeiro é atlântico¸ verdejante¸ húmido¸ com “gente densa”; o segundo mediterrâneo¸ com longos estios e escassamente povoado. Litoral e Interior – o país vai desde a verdura espessa¸ “banhada na luz doce e húmida” do noroeste até à aridez das terras de além Marão; desde a variegada aptidão rural do Vouga ao Sado ou do sul algarvio até aos monótonos descampados alentejanos… Terras altas e baixas¸ Serra e Ribeira¸ Campo e Monte¸ Montanha e Vale¸ Terra Alta e Terra Chã – assim define o povo a complexidade e as oposições¸ bem evidentes na economia e no povoamento. Desde a montanha húmida do norte e da economia agro pastoril tradicional até aos relevos menos acentuados¸ secos e descamados do sul¸ “onde o gado miúdo e as queimadas degradaram a floresta primitiva”¸ temos os traços de uma complementaridade e de um coerência meridional. E¸ deste modo¸ a unidade de Portugal é em grande parte obra humana – que há mais de sete séculos define uma entidade política antiga e estável.

Orlando Ribeiro não se limita a interrogar a tema. Olha sempre as gentes e a sua vontade¸ procurando as “raízes antigas” da identidade. No fim do neolítico fala de três áreas de civilização – a do levante¸ a dos planaltos centrais
e a da faixa oeste. E no Oeste peninsular recorda a “civilização megalítica ocidental”¸ ligada igualmente à Bretanha¸ ao País de Gales e à Irlanda. Aí estão os redutos célticos da Galiza e de Portugal. E a sul temos as influências dos povos mediterrânicos – fenícios¸ gregos¸ cartagineses e a “brilhante civilização indígena” dos Tartessos no Guadalquivir. Os tempos vão revelando as diferenças e as ligações¸ as continuidades

e as descontinuidades. Os conventi romanos¸ a organização administrativa dos suevos e dos visigodos¸ as desinteligências da monarquia goda¸ a invasão moura¸ a influência árabe¸ a reconquista¸ a coexistência das zonas estabilizadas dos reinos cristãos a norte e dos reinos taifas no meio dia com uma zona intermédia de incerteza e de alternância de influências – tudo nos vai revelando uma multiplicidade de elementos¸ num curioso melting pot¸ que vai gerando a autonomia ocidental peninsular. José Mattoso encarregar-se-Ḡaliás¸ mais tarde¸ de lançar nova luz sobre essa encruzilhada de circunstâncias.

O formigueiro humano e a intensa actividade rural de Entre Douro e Minho no tempo da reconquista denuncia o código genético do que será depois a unidade política que origina Portugal. E Portucale¸ junto à foz do Douro¸ vai ser matriz do corpo político donde sairá o Estado português – um Estado que precede a Nação. Portucale serve¸ desde cedo¸ após a reconquista do século IX¸ como designação dos domínios cristãos a sul do Lima. No fim do século X¸ há já um condado (e até há um fugaz rei Ramiro – entre 926 e 930) e¸ pouco mais de cem anos depois¸ D. Henrique de Borgonha verá ser-lhe atribuída a tarefa arriscada¸ incerta e difícil de consolidar e dilatar a influência cristã na região moçárabe de Coimbra para sul¸ além da linha Mondego/Serra da Estrela¸ tendo o Tejo como horizonte. No sul¸ almorávidas e almoádas dominavam o Magrebe e o Al-Andaluz¸ até ao nosso Al-Gharb (o Ocidente) com pouca actividade agrícola e largos descampados¸ apesar das inovações de influência árabe nos vinhedos¸ olivais¸ pomares e hortas regadas. De novo¸ o Atlântico frente ao Mediterrâneo.

São os contrastes naturais que determinam ainda a deslocação de populações. As vindimas do Douro¸ as ceifas da Terra Quente¸ a apanha da azeitona na Beira Baixa¸ as ceifas no Alentejo¸ a tirada da cortiça obrigavam a que houvesse movimentos internos¸ sazonais¸ de gentes. Nos arrozais são exímios os caramelos do Mondego e do Vouga¸ bem como os gaibéus do norte do Ribatejo ou os avieiros da foz do Liz… Ao Ribatejo e ao Alentejo chegam os minhotos e pica-milhos¸ os beirões e os ratinhos. E em Lisboa e na Caparica encontramos as varinas e varinos de Ovar¸ como é bem de ver¸ ao lado dos pescadores de Ílhavo. E em Azeitão¸ Orlando Ribeiro descobre a curiosíssima distinção entre os caramelos de estar e os caramelos de ir e vir¸ ou seja¸ os colonos permanentes e os migrantes periódicos. É este o entrecuzar de influências que reforça¸ aliás¸ o melting pot e a identidade portuguesa complexa e diversa.

E a divisão regional? Apesar dos contrastes¸ os aspectos comuns e as influências diversificadas e entrecruzadas tomam difícil a definição das regiões. Percebe-se¸ aliás¸
a resistência à regionalização. No fundo¸ “o que caracteriza as regiões geográficas de Portugal é o padrão miúdo e a rica variedade de aspecto e contrastes” (p. 141). As transições são graduais e¸ de novo¸ o Mediterrâneo e o Atlântico marcam os dilemas de definição. “A Estremadura recorda a Ática e o Lácio¸ o Alentejo os planaltos cerealíferos da Sicília¸ mas apenas o Algarve constitui uma fímbria marítima comparável à Fenícia ou ao Levante Espanhol” (p. 142). A faixa litoral portuguesa é entrecortada por falhas e deslocações¸ de idade e natureza diversas¸ por vagas erosivas e pelo contraste entre as gargantas fundas¸ secas no Estio¸ e os grandes rios vindos do centro da Península. As regiões são definidas pela alternância entre as influências mediterrâneas e atlânticas – o Norte Atlântico¸ o Norte Transmontano e o Sul. “À primeira essencialmente oceânica¸ contrapõe-se o bloco de regiões interiores do Nordeste¸ que as montanhas separam das influências marítimas; o baixo Mondego¸ a orla do maciço antigo e o sopé da Cordilheira central¸ limitam-nas a ambas do resto do Pais¸ onde a meridionalidade se traduz pela dominância progressiva do carácter mediterrâneo” (p.144).

O Norte Atlântico é o “tronco antigo e robusto” da nação¸ dominado pela abundância de chuvas¸ pela riqueza da terra e pela vitalidade das populações. E uma região de intensa diversidade e de policultura. O Porto velho é o pólo histórico indiscutível da região¸ mas Braga pontua como sede do velho arcebispado. A diversidade urbana coexiste com a intensidade rural. As montanhas do Minho¸ as serras do Douro e do Vouga assemelham-se¸ mas o povoamento dá-lhes múltiplas facetas na actividade e nas tradições. O Noroeste é¸ desta forma¸ rima “unidade natural definida pelo predomínio dos caracteres atlânticos¸ unidade histórica mantida através de uma população antiga e densa que¸ pelo seu número e homogeneidade¸ veio a constituir o elemento aglutinante do Estado português” (p.148). Nesta síntese feliz¸ O. Ribeiro dá-nos o sinal das diferenças¸ que se unem e se completam¸ e dos elementos comuns. Sentimos a História a fazer sentido – e os reinos cristãos a espraiarem-se naturalmente para a Beira Alta¸ em direcção ao Mondego e à Cordilheira Central¸ passando pelo Dão vinícola e por Viseu e indo até à Estrela¸ “enorme reservatório de águas límpidas e de grandes desníveis” (p.149).

No Norte Transmontano “a paisagem carrega-se de tons severos¸ cinzentos¸ acastanhados. A luz torna-se mais crua¸ a terra mais dura e a gente mais retraída”. Para cá do Marão¸ mandam os que cá estão! O arvoredo rareia. Desapareceram os castanheiros¸ a batata cultiva-se no planalto. A Terra Fria e a Terra Quente marcam uma paisagem de extremos. Nas vertentes do Douro¸ os matagais deram lugar no séc. XVII aos formosos vinhedos do “vinho fino”¸ nos terrenos de xisto. A Régua é o epicentro e dali sai o vinho¸ Douro abaixo¸ para se tornar do Porto¸ sob os auspícios da colónia britânica. A praga da filoxera do séc. XX dizimou as vinhas. Algumas foram substituídas por amendoeiras e oliveiras. Mas o vinho continuou a ser o grande símbolo da região¸ que ainda se lembra a memória do Barão de Forrester¸ morto no Douro¸ quando a Ferreirinha¸ D. Antónia¸ se salvou…

No Sul¸ o Alentejo singulariza-se pela monotonia da planície. Mas as terras meridionais são complexas e heterogéneas¸ começando na zona de transição do sopé da Cordilheira Central¸ a sul do Fundão¸ na Portela de Alpedrinha¸ onde a cova da Beira anuncia as planuras de além Tejo¸ indo¸ para oeste¸ através da planície aluvial do Mondego e da cidade de Coimbra até ao grande maciço florestal de Leiria. Depois¸ há o polimorfismo da Estremadura¸ os maciços calcários¸ os barros basálticos dos arredores de Lisboa¸ o microclima da romântica Sintra¸ a área de influência de grande metrópole mediterrânea e a península de Setúbal¸ o santuário natural da Arrábida e a sua floresta mediterrânea. Para leste¸ estão o Ribatejo¸ a lezíria¸ Santarém e o vale celebrado por Garrett em “As Viagens na Minha Terra”¸ que abre para sul na “imensidão de terra lisa ou apenas quebrada em frouxas ondulações…” Aí está Évora¸ “a cidade mais bela de Portugal”¸ no dizer do mestre¸ repositório vivo da história portuguesa. E vêm depois o Baixo Alentejo¸ com Beja como centro¸ e os dois Algarves – a serra e a orla marítima¸ lugar de encanto e amenidades – “nenhuma outra região portuguesa possui uma rede urbana tão antiga¸ tão densa e tão importante”¸ com uma profunda organização romana e muçulmana¸ tendo esta passado quase intacta ao domínio português…

O Portugal de Orlando Ribeiro é uma encruzilhada de influências¸ entre o Mediterrâneo e e Atlântico¸ atenta à complexidade e à reversibilidade dos movimentos de uma geografia fundamentalmente humana. Por isso¸ a “severa disciplina da Ciência”¸ a que sempre foi fiel¸ não deveria fazer perder “a amorosa compreensão da terra
e da gente¸ que constitui a essência da geografia”. Está tudo dito.

JL – 2/4/2003

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«Portugal é mediterrânico por natureza, atlântico por posição»
(Pequito Rebelo em “A Terra Portuguesa” – 1929)

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